segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O primeiro verso

Farei um verso sobre o puro nada (“Farai un vers de dreit nien”) foi a primeira linha da literatura do Ocidente, escrita lá pelas redondezas do ano 1100. Antes havia o mundo clássico e seus Édipos arrependidos e suas guerras de Tróia. Mas a crise dos anos 500 a 800 fora mais que suficiente para quase passar uma borracha no que existia. As estradas e a cultura tinham sido engolidas pelas selvas e pela insegurança, e a sociedade mal podia manter-se viva com as parcas colheitas e as guerras. A alfabetização se tornou rara como diamantes e o latim se foi perdendo. Com algum exagero mas não muito pode-se dizer que a literatura se perdera. Era preciso fundar outra.

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Esse verso refundador explica muito do que aconteceu pelos seguintes novecentos anos. Um verso sobre o puro nada – uma literatura que se sustenta por si mesma, não por histórias que venha a contar.

Que também não tenha por objeto a sustentação de valores morais, os quais necessariamente preenchem o mundo – ela fala sobre o nada. Nem o nada é objeto – é o puro nada, o nada-nada. Uma literatura decepcionada, desiludida, ou de um de um poeta desiludido. E ao mesmo tempo re-iludido pelo fascínio da arte. Uma literatura que não visa a representação ou à duplicação do que existe. E que seja pessoal – farei um verso – há um ponto de vista – não é um povo que fala, é o poeta. E quem é esse poeta?

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