Somos todos vítimas de nosso tempo e os tempos (Le Temps, Notre Époque) também vitimaram Alphonse Daudet. (Ele não era filho da França como Borges não o era da Argentina nem você do Brasil nem ninguém de parte nenhuma. Qualquer conjunto de pessoas que não se veja dia a dia é um conjunto artificial, diz o professor Demétrio Magnoli (O Corpo da Pátria!) e está certo.) Alphonse nasceu sem escolher – ninguém escolhe (on ne choisit pas) – e estava vivo num pedaço de mundo que se chamou França num pedaço de tempo que se denominou após a guerra Franco-Prussiana (Paris tomada, o patético Napoleão III numa gaiola). O ano, 1871.
A guerra revirou o mundo. A França, antes monarquia, tornou-se uma república de generais vencidos que precisavam justificar por que eles detinham o poder, mesmo sendo vencidos. Tiveram uma ideia (quem manda sempre tem uma ideia): a derrota seria orgulho. Nobilitado como tragédia, o fato de a França haver com fragor perdido a guerra para a Prússia seria a base para uma reconstrução nacional, e para uma vingança.
Os escritores foram recrutados. (Não só eles: compositores fizeram monstruosidades como Le Régiment du Sambre et Meuse, uma patética música sobre um regimento que é morto inteiro numa batalha – aliás, o último não é morto, se suicida).
Já escrevera as Cartas do meu Moinho, uma coletânea de contos que prenuncia, se não o estilo, a orientação temática dos romancistas nordestinos das anos 1930. É reputado como o primeiro regionalista. O livro começa com o arrendamento de um moinho de trigo no sul da França, a chamada região do Meio-Dia (Midi). Seguem-se histórias de pescadores do mar da Córsega, moleiros, gente pequena que vive do arrendamento de braças de terra. Desse refúgio Alphonse Daudet arrancou-se para escrever patriotismos.
O pior deles talvez tenha sido um crime de letras chamado La Dernière Classe (a última aula), sobre um menino que adentra a última aula de francês de sua cidadezinha na Alsácia-Lorena. (Esta tinha sido perdida para a Prússia, já então Alemanha). Está tudo lá – o velho e bom professor, que, apesar disso, dá pancadas de régua nos alunos; os velhos e bons anciãos da aldeia; o velho e preguiçoso aluno que se arrepende de não haver estudado; a velha e boa pátria; o velho e mau inimigo). O governo inimigo proibira as aulas de francês. O professor alemão chegaria no dia seguinte. Por isso é a última aula – uma reprovação aos maus patriotas que deixaram a tragédia acontecer. E termina com o choro do professor - em um tempo que homens chorando era motivo de guilhotina.
Essa doce monstruosidade se encontra no lugar número cinquenta e nove dos livros mais apreciados do site http://www.litteratureaudio.com . Há uma antiga lenda nos oásis do Magrebe árabe de que o mundo têm dois gênios: um mau e zombeteiro e outro bom e chorão. Diante desse exibicionismo patriótico, creio que um dos gênios zomba e o outro chora. Isso, é claro, se a lenda realmente existir. Mas não, creio que não exista. Quanto a Alphonse Daudet, tem toda a eternidade para arrepender-se, como diria uma canção ruim.
0 comentários:
Postar um comentário