sexta-feira, 24 de setembro de 2010

PRODUZIMOS MUITO E MAL


Como decidir em quem votar? Alguns procuram textos sagrados. Outros, encíclicas de papas com nome cheio de algarismos romanos escritas nos séculos XVIII ou IX. Prosaicamente, procurei a pauta de exportações brasileiras. Fácil, está na página do Banco Central.
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Uma pauta de exportações é um retrato. O nosso não chega a ser o monstro Frankenstein de Mrs. Shelley, mas não é bonito.
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Veja, o que mais exportamos é ferro. Nada muito do que se orgulhar: a gente cavoca a terra, tira aquele monte de pedregulhos pesados, amontoa num vagão de trem, depois num porão de navio. E ele vai embora. Trabalho pouco elaborado, remuneração sem valor: aquilo é vendido por uma ridiculosidade por quilo. Só é rentável porque o dinheiro fica em mãos de muito poucos. Para eles, dá dinheiro.
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Por questões técnicas, às vezes aquilo precisa ser transformado em bolinhas para entrar no forno. Então a gente junta uns elementos químicos e calor, e são as bolinhas (“pelotas”) que vão embora. De novo, trabalho pouco inteligente, pagamento pouco.
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Nosso segundo produto é o petróleo. Puxa da terra, bota no navio. Preços mais altos por causa da própria futura exaustão do dito. De novo, nada muito sofisticado.
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Depois, soja. As populações dos países ricos querem comer carne. (E engordar e ter pressão alta e empacotar num infarto, mas tudo bem!) Só que eles não têm 200 milhões de hectares para dar para boi (nós temos). Eles têm que manter o boi apertado num estábulo e trazer a comida para ele. Essa comida requer muita terra. E água. Até 1975 o boi comia anchova, um micropeixe que dá na costa do Peru. Depois descobriram a soja. Que infelizmente insiste em não aumentar muito de produtividade. (Desde 1950 a produtividade do milho quadruplicou – a da soja mal chegou ao dobro.) A melhor maneira de obter mais soja é usando mais terra para plantar mais soja. Bem, temos terra e água baratinhas – e a soja é igualmente baratinha.
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Na mesma linha, vendemos carne. Proteína para a turma do Norte. E açúcar, para eles engordarem. Não vendemos sofisticações, mas pelo menos nossos simplezinhos são bons? A exportação de carne é vaga-lume, abre e fecha. Vive sendo embargada e depois reaberta por problemas de saúde. (Nossa carne é doentinha.) Os EUA não compram mais nossa carne cozida (daqui a pouco reabrem, para depois fechar de novo). A Rússia descobriu umas coisas feias em nossos bois mortos, umas lembranças de um vermífugo, que a gente nem consegue controlar a níveis toleráveis. A Europa chegou a importar de umas dez mil fazendas nossas, depois por questões de saúde diminuiu para umas cem, depois aumentou um pouco. Em outras palavras, nem carne a gente produz direito.
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E o açúcar? Melhor, o famoso etanol? Bem, é mercado que promete. Ela lei americana de biocombustíveis, os EUA em 2022 devem misturar 136 bilhões de litros deles a suas bombas de gasolina (cabeça, tronco e rodas). Só que, tirado a parcela dos produtores americanos de etanol de milho, que eles também têm de tomar sua Budweiser, sobram uns 75 bi, ainda muita coisa. Só que desses, uns 60 serão do chamado biocombustível de 2ª geração – baseado em celulose. Possível, mas caro. Os de sempre (EUA, China e Europa) estão investindo loucamente em pesquisa para baratear – e nós, como sempre, não o suficiente – apesar do recente acordo da Petrobrás com a KL Energy nesse sentido. Restam uns 15 bi, ainda muito. E com sinceridade anglo-saxônica se pode ler em páginas de fora: a vantagem do Brasil é sua matéria-prima barata (cheap sugar-cane).
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E antes era assim? Vejamos no século XIX, o café. A terra era, por mercê de Deus ou do Imperador, um brinquedo na mão de poucos. E tinha muito húmus, por mercê de árvores que tinham morrido ali por uns milhos de anos. Os poucos contratavam ex-escravos para a tarefa – subiam os morros cheios de mata, cortando pela metade as árvores. Depois cortavam as árvores de cima, em linha, e estas desciam levando tudo. Depois, queimavam. Sequer se davam ao trabalho de girar os troncos para formar barreira contra a erosão. Plantavam em quadrado – formavam lindos corredores pelos quais as abundantes chuvas podiam levar todo o húmus e cavar buracos. Tratos culturais mal existiam – no máximo acumular palha na base dos troncos. Quanto às sementes, eram recebidas de presente de outros nobres, ou compradas, e nem se sabia o significado da palavra pro-du-ti-vi-da-de. A densidade de plantio era ridícula. Dava para colocar o triplo de cafeeiros na mesma terra.
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A terra, cavocada, sem fertilidade – era vendida num par de décadas a cortadores de lenha – e depois revendida para colocarem um boi por hectare – e ainda hoje podemos ver a grama, os poucos bois, os buracos de erosão e a pobreza, nos morros do Sudeste. E uns poucos casarões transformados em hotéis fazenda, revivendo, como dizem nos folhetos de propaganda, a “grandeza do passado”.
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E sequer nosso café era muito bom. O de Java e o da Colômbia eram melhores. Vendiam mais rápido. O nosso descansava nos armazéns, mas acabava vendendo – pelo próprio peso. Era muito café.
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Essa parece ser a sina – produzimos muito, de cambulhada, produtos que não precisam de muita cabeça para ser feitos, e sequer muito bons. Qual nossa vantagem? Terra. Muita terra nos papéis de cartório possuídos por poucos. Isso, e salários de microscopia. Só isso. Claro, há ilhas de produtos sofisticados – exportamos muitos aviões, por exemplo. E caminhões. Mas no geral, é isso.
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Não quero mais produzir barato e ruim. Quero mudanças, que já tardam há um par de séculos. É nisso que penso quando voto. E deixo as escrituras e encíclicas em paz.

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