
Alguém juntou barro. E palha. Levou ao sol ou secou no fogo. E clivou a história em antes e depois. Sua invenção é a espinha do prédio mais sofisticado abarrotado dos computadores mais modernos: ela é o tijolo. (Antes, o mundo era de pedra).
Eu não sabia que existia uma ciência chamada Teoria da Cerâmica, que nada tem a ver com programas de trabalhos manuais na TV à tarde. È uma ciência desenvolvida, mencionada extensivamente pelo historiador e ex-monge John Dominic Crossan no seu The Birth of Christianity, seiscentas páginas sobre as primeiras duas décadas de religião cristã. Cerâmica é importante. Geralmente não pensamos o óbvio, mas sem cerâmica só se pode comer coisas cruas ou espetadas num pau e levadas ao fogo. A cerâmica permite que você coloque água e comida num vasilhame e o leve ao fogo e o vasilhame não queima. Ou seja, permite a criação da arte da culinária. Prêmios Nobel para quem a inventou.
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Uma terceira invenção de brilho trouxe quem fez a palavra. Uma massa de sons associada a um objeto, ação ou mais ousadamente ainda a um conceito. Difícil esgotar e duvido que alguém esgote as possibilidades da palavra. É enfeitiçadora, como diz Wittgenstein. De todas as suas características, vejamos a linearidade. Não adianta, antes de ler “linearidade” você leu o artigo “a”. E antes ainda o verbo “adianta”. Uma palavra após a outra.
Um marinheiro polonês que atendia pelo nome quase impronunciável de Jozef Teodor Nałecz Korzeniowski na virada dos anos 1900 recebeu uma oferta de ser capitão de navio. Ele não era capitão, era sub, e a oferta tentou. Seria capitão para uma companhia comercial de marfim num rio chamado Congo. Chegando lá, não era nada daquilo. Não seria capitão, continuaria sub. Decepcionado, logo foi embora. Mas o que ouviu naquele pequeno período gelava as veias.
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Voltou à Inglaterra e escreveu a sua história, travestida na história de um capitão que subia o rio para procurar um chefe de estação comercial. Esse chefe era um homem sensível, pintava e queria o progresso do mundo, era noivo de uma moça amorosa e viajara à África para ganhar dinheiro, era pobre. O escritor deu a este chefe o nome de Kurtz. Que fora seduzido pelos lemas de civilizar os negros e deparara com uma máquina de matar e agrilhoar povos mais fracos que em algumas décadas reduziu a população do rio de uns 25 para 11 milhões de pessoas. E enlouqueceu. Esta é a história. Acompanhamos um grupo de brancos subindo um rio, querendo dinheiro, e o narrador cada vez mais interessado neste homem chamado Kurtz. No final o encontra, e ao morrer Kurtz sintetiza a empresa da colonização européia em duas frases, O horror, o horror. O autor não se chamava mais Jozef Teodor Nałecz Korzeniowski e sim Joseph Conrad, e sua narrativa era The Heart of Darkness, O Coração das Trevas.
A palavra se presta total a narrativas lineares. O narrador consegue o emprego. O narrador sai da Europa. O narrador chega a África. Entra no barco fluvial. Sobe o rio. Encontra Kurtz. Kurtz lhe revela o horror da civilização branca e cristã. Um elemento depois do outro. Mas não é só isso. A palavra é sinérgica. De certa forma, ganha da imagem. A teórica da literatura Francine Prose lembra um fato óbvio, um texto é feito de palavras. Talvez uma prova seja que O Coração das Trevas nos revela o terror do colonialismo mais que qualquer relatório humanitário, por mais informativo e bem-intencionado que seja. Por que sua escolha de palavras é melhor, por que os recursos da palavra são melhor utilizados. Não precisamos de uma foto do rio Congo, não precisamos de nenhuma foto dos horrores que os belgas fizeram. (Sim, foram os simpáticos cidadãos daquele simpático país).
A Penguin recentemente relacionou seis experiências de literatura digital (http://wetellstories.co.uk/). No fundo um jogo com dois elementos, a escolha e os elementos extrapalavra. A imagem fixa, o som, a imagem que se move. Um problema que toda literatura digital enfrenta é que os elementos extrapalavra são ilustrativos. A imagem ilustra, como a foto do canguru em cima da palavra canguru no artiguinho da Wikipédia. O problema é que num contexto literário uma boa descrição narrativa do canguru torna uma foto do próprio dispensável, quando não prejudica. Mais ainda uma patética gravação de seus grunhidos.
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A utilização criativa dos elementos extrapalavra desafia a literatura digital. O seu desenvolvimento como gênero artístico autônomo depende disso.





