sábado, 24 de outubro de 2009

A palavra e o rio


Alguém juntou barro. E palha. Levou ao sol ou secou no fogo. E clivou a história em antes e depois. Sua invenção é a espinha do prédio mais sofisticado abarrotado dos computadores mais modernos: ela é o tijolo. (Antes, o mundo era de pedra).

Eu não sabia que existia uma ciência chamada Teoria da Cerâmica, que nada tem a ver com programas de trabalhos manuais na TV à tarde. È uma ciência desenvolvida, mencionada extensivamente pelo historiador e ex-monge John Dominic Crossan no seu The Birth of Christianity, seiscentas páginas sobre as primeiras duas décadas de religião cristã. Cerâmica é importante. Geralmente não pensamos o óbvio, mas sem cerâmica só se pode comer coisas cruas ou espetadas num pau e levadas ao fogo. A cerâmica permite que você coloque água e comida num vasilhame e o leve ao fogo e o vasilhame não queima. Ou seja, permite a criação da arte da culinária. Prêmios Nobel para quem a inventou.
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Uma terceira invenção de brilho trouxe quem fez a palavra. Uma massa de sons associada a um objeto, ação ou mais ousadamente ainda a um conceito. Difícil esgotar e duvido que alguém esgote as possibilidades da palavra. É enfeitiçadora, como diz Wittgenstein. De todas as suas características, vejamos a linearidade. Não adianta, antes de ler “linearidade” você leu o artigo “a”. E antes ainda o verbo “adianta”. Uma palavra após a outra.

Um marinheiro polonês que atendia pelo nome quase impronunciável de Jozef Teodor Nałecz Korzeniowski na virada dos anos 1900 recebeu uma oferta de ser capitão de navio. Ele não era capitão, era sub, e a oferta tentou. Seria capitão para uma companhia comercial de marfim num rio chamado Congo. Chegando lá, não era nada daquilo. Não seria capitão, continuaria sub. Decepcionado, logo foi embora. Mas o que ouviu naquele pequeno período gelava as veias.
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Voltou à Inglaterra e escreveu a sua história, travestida na história de um capitão que subia o rio para procurar um chefe de estação comercial. Esse chefe era um homem sensível, pintava e queria o progresso do mundo, era noivo de uma moça amorosa e viajara à África para ganhar dinheiro, era pobre. O escritor deu a este chefe o nome de Kurtz. Que fora seduzido pelos lemas de civilizar os negros e deparara com uma máquina de matar e agrilhoar povos mais fracos que em algumas décadas reduziu a população do rio de uns 25 para 11 milhões de pessoas. E enlouqueceu. Esta é a história. Acompanhamos um grupo de brancos subindo um rio, querendo dinheiro, e o narrador cada vez mais interessado neste homem chamado Kurtz. No final o encontra, e ao morrer Kurtz sintetiza a empresa da colonização européia em duas frases, O horror, o horror. O autor não se chamava mais Jozef Teodor Nałecz Korzeniowski e sim Joseph Conrad, e sua narrativa era The Heart of Darkness, O Coração das Trevas.

A palavra se presta total a narrativas lineares. O narrador consegue o emprego. O narrador sai da Europa. O narrador chega a África. Entra no barco fluvial. Sobe o rio. Encontra Kurtz. Kurtz lhe revela o horror da civilização branca e cristã. Um elemento depois do outro. Mas não é só isso. A palavra é sinérgica. De certa forma, ganha da imagem. A teórica da literatura Francine Prose lembra um fato óbvio, um texto é feito de palavras. Talvez uma prova seja que O Coração das Trevas nos revela o terror do colonialismo mais que qualquer relatório humanitário, por mais informativo e bem-intencionado que seja. Por que sua escolha de palavras é melhor, por que os recursos da palavra são melhor utilizados. Não precisamos de uma foto do rio Congo, não precisamos de nenhuma foto dos horrores que os belgas fizeram. (Sim, foram os simpáticos cidadãos daquele simpático país).

A Penguin recentemente relacionou seis experiências de literatura digital (http://wetellstories.co.uk/). No fundo um jogo com dois elementos, a escolha e os elementos extrapalavra. A imagem fixa, o som, a imagem que se move. Um problema que toda literatura digital enfrenta é que os elementos extrapalavra são ilustrativos. A imagem ilustra, como a foto do canguru em cima da palavra canguru no artiguinho da Wikipédia. O problema é que num contexto literário uma boa descrição narrativa do canguru torna uma foto do próprio dispensável, quando não prejudica. Mais ainda uma patética gravação de seus grunhidos.
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A utilização criativa dos elementos extrapalavra desafia a literatura digital. O seu desenvolvimento como gênero artístico autônomo depende disso.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A PESTE - II


CAMUS, Albert. La Peste. Paris: Gallimard, 1985. 279p.

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Um livro adequado para tempos de gripe suína.

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“Na manhã do dia 16 de abril, o Dr. Bernard Rieux sai de seu escritório e encontra um rato morto, na escada.”

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Albert Camus escreveu sobre um lugar que bem conhecia, a Argélia. A pulga cravou seus dentes na cidade de Oran. Podia ter sido em qualquer cidade em 2009. A peste é a crônica de uma cidade tomada por uma doença.

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Este livro não precisa de resenha. Bastam frases.

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“No dia 28 de abril, súbito os ratos desaparecem. O porteiro se sente mal. Tem um nó de madeira no pescoço”.

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“A palavra ´peste´ foi pronunciada.”

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“O micróbio em três dias quadruplica o volume do baço... Pode matar a metade da cidade em dois meses”.

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“Finalmente ele reconheceu que tem medo.”

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“Se a peste não parar por si mesma, não serão as medidas da Administração que a pararão”.

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“A gente se fatiga da piedade quando esta é inútil.”

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“O Padre grita: ´Vocês mereceram a infelicidade!´”

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“Amar ou morrer juntos, não há outro recurso.”

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“As repartições não são feitas para compreender”.

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“A única maneira de lutar contra a peste é a honestidade”.

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“Ele tinha coração. Servia-lhe para ver morrer homens”.

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“A peste se prolongará por meses, até parar sem razão.”

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“Não explicar a peste, mas aprender com ela”.

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“Se um padre consulta um médico, há nisso uma contradição”.

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“Ao renunciar a matar, eu me condenei a exílios. Os outros farão a história.”

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“Há a pulga e as vítimas e não mais. Escolhi as vítimas.”

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“Ser homem é mais difícil que ser santo”.

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“A peste perdia sua matemática soberana”.

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“Uma declaração administrativa não pára uma pulga”.

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“O que é a peste? É a vida, eis tudo.”

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“Há nos homens mais coisas a admirar que a detestar.”

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O ECLIPSE, de George Meliés

George Meliés tinha razão. O mundo devia ser sonho. Devia ser sonho – ou não devia ser nada. E a seqüência de quadros sensíveis de celulóide à razão de 16 ou 24 por segundo são uma forma bem prática de torná-lo sonho.

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George Meliés percebeu no austero invento dos irmãos Lumière a possibilidade de uma arte. E neste hiper-clássico prova isso. Uma arte que rastejava, uma indústria também. E Melés não foi pé-no-chão. Antes pé-na-lua: filmou o ECLIPSE, ou o namoro do sol e da lua. Um velho astrônomo e seus alunos maluquinhos vêem os corpos astrais. Linda, a cena das estrelas.

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George Meliés tinha razão. O mundo devia ser sonho. Ser sonho ou ser nada. Claro, sempre resta a possibilidade de ser nada!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A CONVENÇÃO DE VENA PARA PROTEÇÃO DA CAMADA DE OZÔNIO

Esta foi uma convenção assinada em 22 de março de 1985 em Viena. Não contém nenhum compromisso no sentido de reduzir o consumo ou produção de CFC. Apesar de disso foi um importante marco, no sentido de atacar um problema ambiental antes que seus efeitos fossem sentidos ou sua existência científicamente provada. Foi um exemplo de "Princípio da precaução" numa negociação internacional
Em 2001 184 partes haviam ratificado a Convenção.
Artigos relevantes:
1. As partes devem tomar medidas apropriadas para proteger a saúde humana e o ambiente contra efeitos adversos resultantes de atividades humanas que possam modificar a camada de ozônio;
3. As partes devem cooperar em pesquisas sobre os efeitos na saúde humana resultantes de mudanças em radiações ultra-violetas tendo efeitos biológicvos (ultra-violet solar radiation having biological effects - UV - B);
Anexo I : 1. As partes reconhecem que as principais questões científicas são:
As modificações na camada de ozônio que podem resultar em mudança no total de UV-B que atinge a superfície da Terra e as consequências para a saúde humana, organismos, ecossistemas e materiais úteis;
modificações na distribuição vertical de ozônio.
2. d) (i) observação sistemática do status da camada, pela criação do Global Ozone Observing System;
(vi) observações nas propriedades do aerosol;
(p 19-21) Substâncias naturais ou antorpogênicas que se pensa que têm potencial para modificar as propriedades químicas ou físicas da camada de ozônio:
a) Substâncias de Carbono:
- Monóxido de Carbono (CO)
- Dióxido de Carbono (CO2)
- Metano (CH4)
- espécies de hidrocarbono não-metano;
a) Sustâncias de nitrogênio
- óxido nitroso (N2O)
- Óxidos de Nitrogênio (NOx)
c) Substâncias de cloro
- alcanos completamente halogenados, como o CCI4, CFCI3 (CFC - 11), CF2CI2 (CFC - 12);
- alcanos parcialmente halogenados, como o CH3CI, CHF2CI (CFC -22)
d) substâncias de Bromo
alcanos completamente halogenados, como o CF3Br;
e) substâncias de hidrogênio
- Hidrogênio (H2);
- Água (H2O)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Les français ne sont pas inférieurs


Le Brésil est vraiment um pays inférieur. Imaginez, il y a des vols en plein Métro de Rio. Centaines de vols. Le police ne fait pas grand chose, ils seulement parlent quelque chose sur « difficulté de identification » des voleurs. Et le pire : ils ne sont des voleurs, mais des voleuses ! Prenez-vouz congé de la mesonge de la sensibilité et de la bonté des femmes. Ces grupes de voleuses travaillent en trios, frequentement attaquant d´autres femmes.

Mais un moment, s´il vous plaît. C´est n´est pas Rio, c´est Paris! Le Figaro a fait un grnad reportage sur les centaines de vols au Métro parisienne.

Mais personne alait dire que les français sont inférieurs...

http://www.lefigaro.fr/actualite-france/2009/08/28/01016-20090828ARTFIG00012-alerte-aux-voleuses-a-la-tire-dans-le-metro-parisien-.php

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Overpopulation - The Economist debates


The Economist Magazine has from time to time a good idea: it puts a proposition on the floor and opens it to opinions and rebuttals. There a major defender of the prop and an attacker. Now on August 2009 the motion as they call it was: Are we too many people?

Five days and over five hundred comments from around the world made of that one of the most popular and controversial issues ever discussed in this schema. Mr, John Seeger President of a Think Tank called The Population Connection top-defended the motion. He predictably relied on sheer (and sometimes haunting) numbers. Such as: Mankind took from its beginning to the year of the Universal Declaration of Human Rights to reach 2 billion people. And from that time it has more than tripled its numbers. That means 4,7 billion people more to feed, to shelter and to transport – and to burn fossil fuels for it, adding to the effect of climate change.

Climate change was no minor issue within the debate. The opponents of the notion especially Mr. Michael Lind the chief opponent doesn’t deny the Climate Change at all. But it says that it has more to do with bad technology and bad governments than with bad population management. And that this problem and those of deforestation and urbanization will continue to happen, even with a population stopped. He’s certainly got a point.

The magazine calls guests to state their opinions. Mr. Robert Engelmann was one of them and he criticized a certain overconfidence on the capacity of future science to solve problems. According to him this is a risky bet with very high stakes. He emphasizes that we might solve that problem of climate change within this century. Otherwise we are likely – and literally - cooked.

Not surprisingly, the motion won for a landslide. Four out of five people agreed that we are too many – and that we must somehow solve that problem. How and when, and possibly where – those will probably be themes for next debates!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

ALEXANDRINOS


Michel Zink na Littérature française du Moyen Age (Paris, PUF, 2001) nos fala de um Roman D´Alexandre, best-seller dos anos 1100, um relato largamente fictício da vida do Imperador da Macedônia. É a cereja na ponta de uma genealogia de relatos sobre o tema, todas tendo como base um texto anônimo do século II a.C. cujo autor é conhecido como pseudo-Calístenes. Dele derivou uma fieira de resumos, aumentos e adaptações e plágios como a Res gestae Alexandri Macedonis de Julius Valerius do século IV d.C., compendiada numa Epítome do sec. IX, mesma época em que o arcipreste Leão de Nápoles escrevia uma Nativitas et Victoria Alexandri Magni que por sua vez foi fonte de uma Historia de Preliis de vivo sucesso. Há outros textos como A carta de Alexandre a Aristóteles sobre as maravilhas da Índia. Alberico de Pisançon escreveu em franco-provençal um Alexandre dos quais nos restam 105 versos octossílabos, uma pouco antes de um certo Alexandre de Paris escrever uma longo Roman d ´Alexandre em versos rimados de doze pés.

Em homenagem a este obscuro poeta medieval, os versos de doze sílabas são chamados Alexandrinos.